sábado, 28 de março de 2009

ponderações

faz-se, então, a falta: tua ternura encandecida.
(queria falar sem dizer)
mas sigo firme, e continuo não chorando por estranhos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

transmission

ouço baixinho uma voz de timbre surdo que ressoa impunemente por-entre todos os musculos e fibras do meu corpo, como se este fosse feito de isopor.
(é de um vibrar numa sintonia tão diferente que sinto-me quase como em um filme de van sant)
tento manter-me alheia, mas... é foda.
mergulho sem nem inspirar.

पोर ser

por ser meia-noite tão implícito, digo: ouço no tictac assonante uma polifonia oscilante de um certo descuido causado por uma (in)feliz conhecidência e, sendo assim, mantenho-me insone.

quinta-feira, 12 de março de 2009

para não perder o costume.

norteando o meu vago bem-querer, estava-(ia ser estávamos, mas não: hoje sou uma.)eu incerta junto do medo profundo de me jogar no abismo: (vertigem).
havia, admito, uma certa covardia diante da possibilidade de cristalizar o sentimento que criei de brincadeira; - como se cria um universo - e que estava se metamorfoseando em buraco negro.
foi por isso que não me arrisquei a rabiscar, estes dias: me peguei prendendo-me a particularidades.
o fato é que teu sorriso me é muito caro, e contagia - como cheiro-de-madrugada, que entra pela janela da sala e insere em nós o desejo louco de sentir os pés descalços no asfalto molhado e laranja da rua solitária.

quarta-feira, 4 de março de 2009

interminado

Era meio-dia.
“Meio dia e quinze”, repetiria-lhe incessantemente Paulo. Mas, para ela, era meio-dia. Dava para sentir no sol baixinho, de raios bem firmes, e no calor escorregadio que lhe fugia entre os dedos.
“Era tão meio-dia”, retrucava sempre, “que a luz tinha gosto de arroz com feijão”.
Ela era Maria. Estava se fazendo de lagartixa, ou de gata, deixando que o tão dito sol de meio dia lhe lambesse as pernas. Fingia estar distraída, mas se admirava em mente; se julgava parte de uma cena bonita, como de um filme. Tinha a pele morena-desbotada e um ar sapeca, como a menina-moça que era, transformando sua deselegância inata em parte do encanto.
Era uma pracinha bonita, de nome Bezerra Aldeão.
Pedro chegou de supetão, e perguntou-lhe: sabe me dizer aonde fica a Rua Marechal Teodoro?
Por ter sido pega no meio de seu ritual voyeurístico e pessoal, Maria se julgou violentada. “Não sei de nada. Não sou daqui”, resmungou baixinho. E Pedro, encantado com a arisqueza daquela morena, se deixou ficar.
Dois anos dalí, casaram-se.