sábado, 7 de agosto de 2010

antídoto

ela, de fato, não tinha nem quinze anos quando o conheceu - numa tarde quase fria em uma pracinha a qual não pertencia. viu-o de relance, e se encantou; talvez justamente pela imperícia de sua pouca idade. (ele nem a notou)
alguns anos depois, estava completamente embriagada pela inconstância daquele já-agora homem. por suas mãos macias - por seu toque múltiplo - por seu andar elástico. mas, principalmente, por julgar-se antídoto. ; é que havia nos olhos daquele segredo uma tristeza inerente - certa desilusão própria dos que não se encaixam - cujos motivos ela almejava saber. e, pouo a pouco, a melancolia hermética do encanto foi esgarçando-se, ficando fina e volátil: um dia, ele chorou de amor e contou-lhe segredos difíceis e além de sua compreensão -ela tee medo - mas era tarde.
o homem-segredo rompeu-se de vez, e (como uma represa liberta) soltou num rompante todo o negrume de seus olhos. a quase-mulher segurou-se firme, engoliu o soluço e calcou seu mais calmo sorriso: "-tudo bem, meu amor, vai dar tudo certo". e passaram dias e a torrente não passava, passaram meses e a torrente não cedia, e ela repetia sem forças "tudo bem, meu amor, vai dar tudo certo" - sem saber que o brilho fresco e encantado dos olhos da menina de nem quinze anos tinham dado lugar aquele vazio melancólico pelo qual ela tanto se intrigara - hoje, a resposta era ela.

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