terça-feira, 14 de abril de 2009

(retrato)

"Ela tinha uns olhos loucos, como de um animal feitos somente para olhar o mundo, uns olhos verdes, castanhos, grandes e com um brilho indescritível. Seu riso era único, histérico, teatral, até mesmo falso, mas não era alto nem estridente. Mas era quando apenas sorria que ficava linda. Ela gostava de falar, de viver, desejosa de experimentar tudo que parecesse ser bom, era elétrica."
- eu, por ele. (retrato)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sobre setes, quatros e três.

feliz o-que-teriamos-sido para você.
(e seriamos, com certeza, uma coisa bonita
- mas pretérito é, por definição, imperfeito; assim, creio estar no brilho triste dos que muito amaram o âmago desta minha inquietude.)
"não lhe tenho amor nenhum - tenho memórias
elas, amam"
e assim, sigo calada, certeira apenas de uma infalibilidade única: para tudo que começa, há um horizonte.

sábado, 28 de março de 2009

ponderações

faz-se, então, a falta: tua ternura encandecida.
(queria falar sem dizer)
mas sigo firme, e continuo não chorando por estranhos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

transmission

ouço baixinho uma voz de timbre surdo que ressoa impunemente por-entre todos os musculos e fibras do meu corpo, como se este fosse feito de isopor.
(é de um vibrar numa sintonia tão diferente que sinto-me quase como em um filme de van sant)
tento manter-me alheia, mas... é foda.
mergulho sem nem inspirar.

पोर ser

por ser meia-noite tão implícito, digo: ouço no tictac assonante uma polifonia oscilante de um certo descuido causado por uma (in)feliz conhecidência e, sendo assim, mantenho-me insone.

quinta-feira, 12 de março de 2009

para não perder o costume.

norteando o meu vago bem-querer, estava-(ia ser estávamos, mas não: hoje sou uma.)eu incerta junto do medo profundo de me jogar no abismo: (vertigem).
havia, admito, uma certa covardia diante da possibilidade de cristalizar o sentimento que criei de brincadeira; - como se cria um universo - e que estava se metamorfoseando em buraco negro.
foi por isso que não me arrisquei a rabiscar, estes dias: me peguei prendendo-me a particularidades.
o fato é que teu sorriso me é muito caro, e contagia - como cheiro-de-madrugada, que entra pela janela da sala e insere em nós o desejo louco de sentir os pés descalços no asfalto molhado e laranja da rua solitária.

quarta-feira, 4 de março de 2009

interminado

Era meio-dia.
“Meio dia e quinze”, repetiria-lhe incessantemente Paulo. Mas, para ela, era meio-dia. Dava para sentir no sol baixinho, de raios bem firmes, e no calor escorregadio que lhe fugia entre os dedos.
“Era tão meio-dia”, retrucava sempre, “que a luz tinha gosto de arroz com feijão”.
Ela era Maria. Estava se fazendo de lagartixa, ou de gata, deixando que o tão dito sol de meio dia lhe lambesse as pernas. Fingia estar distraída, mas se admirava em mente; se julgava parte de uma cena bonita, como de um filme. Tinha a pele morena-desbotada e um ar sapeca, como a menina-moça que era, transformando sua deselegância inata em parte do encanto.
Era uma pracinha bonita, de nome Bezerra Aldeão.
Pedro chegou de supetão, e perguntou-lhe: sabe me dizer aonde fica a Rua Marechal Teodoro?
Por ter sido pega no meio de seu ritual voyeurístico e pessoal, Maria se julgou violentada. “Não sei de nada. Não sou daqui”, resmungou baixinho. E Pedro, encantado com a arisqueza daquela morena, se deixou ficar.
Dois anos dalí, casaram-se.