"o silêncio," interrompeu ela, "o silêncio é a desculpa de quem mente.
só então pode-se perceber o tiquetaquear infernal das coisas que só aprendem a tiquetaquear depois da meia noite. ela deixou-as tiquetaqueando por quase um minuto, até que continuou.
"você fala demais. fala tanto que eu mal me posso ouvir respirar, mal posso ouvir o meu coração bater. é, foi isso: a falta de silêncio não me deixa ouvir, e então eu não percebi quando ele parou de fazer maracatu por você chegar. e você fala alto - como se fosse italiano. mas", ela respirou fundo, "você é turco. TÃO turco no pensar, mas não napolitano no gesticular! por isso eu nunca consegui te decifrar. você gosta disso, não? de se fazer de esfinge. eu só nunca vi esfinge faladeira antes; mas você consegue, AH!, se consegue. ou conseguia: no passado. por que eu estou de SA-CO-CHEI-O do seu tatibitatear constante, que não me deixa dialogar. é. cansei de ser a figurante de teu monólogo. cansei, cansei, canseicanseicanseicanseicansei! vou me mudar para veneza, ou para o cairo. o egito é barulhento, mas não é o TEU barulho, é o MEU, é o vento, são as cores das roupas das pessoas, é o calor da areia que sobe e... VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?"
"sim, claro", murmurou-lhe o homem em resposta. "só me diga: aonde entra o silêncio como desculpa, nessa história toda?"
"o silêncio, meu querido", sorriu-lhe ela, "o silêncio fui eu."
(e fez-se o peso - como nunca antes haviam-no sentido. um peso de culpa, contrapondo-se friamente à leveza da ausência costumeira.
[a realidade é um baque forte])
domingo, 8 de fevereiro de 2009
5 minutos de silêncio
Postado por litchi às 16:09
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2 comentários:
oi
as vezes sou como você- o silêncio. preferia tomar parte do grupo dos falantes, talvez tirar o peso das costas durante um tempo.
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