O grito de "alcance-me" tão implícito no teu ir embora nunca me pareceu tão efêmero quando naquele momento fadítico em cima da torre perdida nas brumas augustinas das seis da manhã que embrulhavam em um esquecimento frio todos os passantes apressados e atrasados que seguem para os trabalhos em ônibus lotados querendo apenas um pouquinho de tempo para conseguirem prolongar o sono perfeito dos desvalidos - como as pombas brancas que tagarelavam acima de nós, abafando tua voz numa tentativa frustrada de não me deixar entender o que eu bem sabia no reconhecer da melodia que suas mãos traçam quando tens algo complicado a falar, ou quando está calor demais e seus sentidos ficam atacados de maresia e saudade indefinida daquela época de calmaria na casinha de janelas verdes que alugávamos perto daquele rio de pedras escorregadias e traiçoeiras, que se escondiam atrás do canto vulgar da água limpa correndo e eu corria junto e você corria de mim, de medo de se deixar alcançar e desejar sucumbir ao que eu sempre lhe prometi: um dia você irá se apaixonar por mim, e vai querer que eu lhe acorde no meio da noite para dizer que tenho medo, medo do sonho aonde eu fico surda e não mais respondo ao seu assobio, assobio tão leve e benígno que desde o começo me chamou atenção, naquela pracinha bonita de nome Bezerra Aldeão, cheia de sorveteiros aclamando ter conseguido sintetizar em um congelado o cheiro de começar um ano todinho novo ao lado de um rapaz sentado em um montículo de grama fumando cigarros de palha com a desenvoltura de quem nunca mesmo fez outra coisa na vida a não ser enrolar cigarros de palha e fumá-los com o canto da boca enquanto bate o pé na grama amarronzada do começo de maio, mas que no final de setembro foi verdes como as janelas e as pedras e a jaqueta que eu comprei um dia antes de subirmos naquela torre, por que achei que você poderia gostar do modo como estávam dispostos os botões, assimetricamente, combinando com a tua idéia maluca de mudar o mundo assim que conseguisse dinheiro o suficiente para comprar uma motocicleta e imitar o Che Guevara, não o de verdade, mas sim o do filme, o filme que vimos juntos quando estreou naquela sala reformada na Av. Paulista pouco antes de sairmos para tomarmos o sorvete mais caro de nossas vidas; mas ele tinha gosto do sucesso que eu senti naquela mesma noite, quando ouvi-lhe o ressonar tranquilo dos que não sabem serem vigiados pelos insones de olhos vermelhos e lábios ressecados, os insones com ouvidos marcados pelo tic tac invisível de coisas que aprendem a tictaquear apenas depois que a lua nasce, iluminando com uma luz macia as tuas mãos agarradas uma na outra, como de um bebê dentro do útero da mãe que um dia eu irei ser, uma mãe espivetada que viajou o mundo todo e coleciona dedais de porcelana em uma estante que de tão recheada de cacarecos é impossível de se limpar, por que todos tem medo de que o simples encostar transforme em líquidas todas aquelas lembranças de todos os tempos do mundo - sólidas
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

0 comentários:
Postar um comentário