sexta-feira, 20 de março de 2009

पोर ser

por ser meia-noite tão implícito, digo: ouço no tictac assonante uma polifonia oscilante de um certo descuido causado por uma (in)feliz conhecidência e, sendo assim, mantenho-me insone.

quinta-feira, 12 de março de 2009

para não perder o costume.

norteando o meu vago bem-querer, estava-(ia ser estávamos, mas não: hoje sou uma.)eu incerta junto do medo profundo de me jogar no abismo: (vertigem).
havia, admito, uma certa covardia diante da possibilidade de cristalizar o sentimento que criei de brincadeira; - como se cria um universo - e que estava se metamorfoseando em buraco negro.
foi por isso que não me arrisquei a rabiscar, estes dias: me peguei prendendo-me a particularidades.
o fato é que teu sorriso me é muito caro, e contagia - como cheiro-de-madrugada, que entra pela janela da sala e insere em nós o desejo louco de sentir os pés descalços no asfalto molhado e laranja da rua solitária.

quarta-feira, 4 de março de 2009

interminado

Era meio-dia.
“Meio dia e quinze”, repetiria-lhe incessantemente Paulo. Mas, para ela, era meio-dia. Dava para sentir no sol baixinho, de raios bem firmes, e no calor escorregadio que lhe fugia entre os dedos.
“Era tão meio-dia”, retrucava sempre, “que a luz tinha gosto de arroz com feijão”.
Ela era Maria. Estava se fazendo de lagartixa, ou de gata, deixando que o tão dito sol de meio dia lhe lambesse as pernas. Fingia estar distraída, mas se admirava em mente; se julgava parte de uma cena bonita, como de um filme. Tinha a pele morena-desbotada e um ar sapeca, como a menina-moça que era, transformando sua deselegância inata em parte do encanto.
Era uma pracinha bonita, de nome Bezerra Aldeão.
Pedro chegou de supetão, e perguntou-lhe: sabe me dizer aonde fica a Rua Marechal Teodoro?
Por ter sido pega no meio de seu ritual voyeurístico e pessoal, Maria se julgou violentada. “Não sei de nada. Não sou daqui”, resmungou baixinho. E Pedro, encantado com a arisqueza daquela morena, se deixou ficar.
Dois anos dalí, casaram-se.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

descoberta


era tarde macia e sonolenta, transmutada em eternidade pelo brilho cego do meu lembrar. eu andava arrastando os chinelos feito quem não quer nada, e despetalava flores a meu bel-prazer. já nem fazia malmequer, pois sabia a resposta: estávamos em outubro, e eu vagava sozinha.
não que estivesse triste; era algo mais sublime que isso. o que acontecia é que eu nunca havia visto um dia mais propício à melancolia, e a ela entreguei-me de braços abertos - como uma andorinha pega em pleno vôo. havia algo no modo abafado de meus pés repercutirem no asfanto incandescente que dizia baixinho: vem, escute-me, que logo alguma coisa vai acontecer; mas, enquanto não acontecia, eu me limitava a sorrir calada, e a mirar o fim da rua como um objetivo indestrutível, de tão peculiar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

o brilho surdo dos que muito amaram

o ar cheirava a saudades, na hora incerta do lusco fusco. pouco a pouco, o mundo desbotava do vermelho para o cinza e para o azul, como se alguém tivesse acelerado o globo para apresentar todas as estações do ano em um só dia.
me é alheio o nome da que, sentada à beira da água, cantarolava baixinho. o importante é que ela desafinava lindo enquanto marcava o rítimo com os pés, quebrando o espelho-d'agua sem superstição alguma. eu também não saberia definir a canção (hoje estou predisposta ao anonimato), mas a melodia emanava o brilho surdo dos que muito amaram. - como um samba antigo e triste.
a mulher (para quem eu deliberadamente não dei um nome, a fim de não contaminar com personalidade o sentimento) destilava rancor, mas com tal indulgência que, na balança final, tornou-se em jóia rara, pois a intenção inicial do passeio -"arejar a cabeça" (como se o ar fosse oniciente e nos soprasse a resposta de tudo no ouvido) - fora relevada à segundo plano, frente à sonoridade triste da areia esfriando. acontece que, as exatas seis horas e cinquenta e três minutos do dia sete de abril, eu decidi-me por matar a minha personagem sem nome, por medo de que ela se transformasse em mim. e assim o fiz: usando ciatureto, que é o veneno dos poetas - e dos loucos.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

exercíकियो: ओ brilho

o brilho incerto do teu olhar
o brilho translúcido do meu olhar-te
o brilho ausente do nosso lembrar
o brilho capaz da tua ausência
o brilho cego do meu lembrar
o brilho surdo dos que amaram
o brilho oculto no teu vagar
o brilho fagueiro do qual eu gostei
o brilho solúvel em que me afoguei
o brilho delicado do teu pesar
(o brilho sonoro que imprimistes na paisagem)
- o brilho eterno que eu serei.

(12 universos por nascer)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

5 minutos de silêncio

"o silêncio," interrompeu ela, "o silêncio é a desculpa de quem mente.
só então pode-se perceber o tiquetaquear infernal das coisas que só aprendem a tiquetaquear depois da meia noite. ela deixou-as tiquetaqueando por quase um minuto, até que continuou.
"você fala demais. fala tanto que eu mal me posso ouvir respirar, mal posso ouvir o meu coração bater. é, foi isso: a falta de silêncio não me deixa ouvir, e então eu não percebi quando ele parou de fazer maracatu por você chegar. e você fala alto - como se fosse italiano. mas", ela respirou fundo, "você é turco. TÃO turco no pensar, mas não napolitano no gesticular! por isso eu nunca consegui te decifrar. você gosta disso, não? de se fazer de esfinge. eu só nunca vi esfinge faladeira antes; mas você consegue, AH!, se consegue. ou conseguia: no passado. por que eu estou de SA-CO-CHEI-O do seu tatibitatear constante, que não me deixa dialogar. é. cansei de ser a figurante de teu monólogo. cansei, cansei, canseicanseicanseicanseicansei! vou me mudar para veneza, ou para o cairo. o egito é barulhento, mas não é o TEU barulho, é o MEU, é o vento, são as cores das roupas das pessoas, é o calor da areia que sobe e... VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?"
"sim, claro", murmurou-lhe o homem em resposta. "só me diga: aonde entra o silêncio como desculpa, nessa história toda?"
"o silêncio, meu querido", sorriu-lhe ela, "o silêncio fui eu."

(e fez-se o peso - como nunca antes haviam-no sentido. um peso de culpa, contrapondo-se friamente à leveza da ausência costumeira.
[a realidade é um baque forte])