o ar cheirava a saudades, na hora incerta do lusco fusco. pouco a pouco, o mundo desbotava do vermelho para o cinza e para o azul, como se alguém tivesse acelerado o globo para apresentar todas as estações do ano em um só dia.
me é alheio o nome da que, sentada à beira da água, cantarolava baixinho. o importante é que ela desafinava lindo enquanto marcava o rítimo com os pés, quebrando o espelho-d'agua sem superstição alguma. eu também não saberia definir a canção (hoje estou predisposta ao anonimato), mas a melodia emanava o brilho surdo dos que muito amaram. - como um samba antigo e triste.
a mulher (para quem eu deliberadamente não dei um nome, a fim de não contaminar com personalidade o sentimento) destilava rancor, mas com tal indulgência que, na balança final, tornou-se em jóia rara, pois a intenção inicial do passeio -"arejar a cabeça" (como se o ar fosse oniciente e nos soprasse a resposta de tudo no ouvido) - fora relevada à segundo plano, frente à sonoridade triste da areia esfriando. acontece que, as exatas seis horas e cinquenta e três minutos do dia sete de abril, eu decidi-me por matar a minha personagem sem nome, por medo de que ela se transformasse em mim. e assim o fiz: usando ciatureto, que é o veneno dos poetas - e dos loucos.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
o brilho surdo dos que muito amaram
Postado por litchi às 14:22
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4 comentários:
contaminar um sentimento com personalidade só o faz mais intenso. e creio eu que matar a personagem com medo de que ela se transforme em alguém é totalmente plausível.
e, acredite, eu me identifiquei absurdamente com a tal personagem sem nome, e com um sentimento não-tão-intenso. será que o que eu tenho sentido não é forte, afinal? ou será que é assim só porque eu ainda não dei ao seu personagem meu nome?
cianureto não ciatureto
erro de digitação rules
desocupado
get a life [2]
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